sábado, 28 de outubro de 2017

Autobiografia matemática e EJA


Autobiografia como ponto de partida para a Educação Matemática de Jovens e Adultos

 Érica Valeria Alves

Resumo 
Defendido pela Proposta Curricular para a Educação de Jovens e Adultos (BRASIL, 2002) e ratificado por diversos autores (FREIRE, 1975, FONSECA, 2002; DAZOLI et al, 2015), a abordagem de temas matemáticos na Educação de Jovens e Adultos deve sempre partir de elementos já conhecidos dos sujeitos, decorrentes de sua cultura e de suas práticas sociais extraescolares. No entanto, dada a formação inicial dos professores de Matemática que atuam na EJA, a tomada de consciência acerca de tais elementos nem sempre é algo elementar. O presente texto tem por objetivo promover uma reflexão sobre a relevância de partir desses elementos para a abordagem da Matemática na EJA, apresentando a autobiografia como um recurso que pode favorecer ao docente a recolha de elementos que permitam uma melhor organização de sua ação didática. Palavras-chave: Educação Matemática de Jovens e Adultos; Mobilização de Cultura Matemática; Autobiografia.

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Autobiografia como ponto de partida para a Educação Matemática de Jovens e Adultos


Leitura complementar

História da Educação Matemática, Formação de Professores a Distância e Narrativas Autobiográficas: dos sofrimentos e prazeres da tabuada 

 Maria Laura Magalhães Gomes
Resumo 
Este artigo aborda a leitura e a produção de narrativas autobiográficas na disciplina História do Ensino da Matemática, integrante da matriz curricular do curso a distância de Licenciatura em Matemática oferecido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O texto focaliza a relevância das dimensões históricas do ensino da Matemática na formação de professores, apresenta o contexto em foco e discute parâmetros teóricometodológicos para o trabalho com textos autobiográficos na pesquisa e no ensino da História da Educação Matemática. São comentados, em especial, aspectos relacionados ao ensino e à aprendizagem da tabuada nas narrativas autobiográficas escritas por alunos do referido curso, em 2011. Palavras-chave: História da Educação Matemática. Formação de Professores de Matemática a Distância. Escrita Autobiográfica. Narrativas sobre Ensinar-Aprender a Tabuada.

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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Cultura matemática e currículo na EJA

O currículo enculturador de matemática na EJA

SIMONE BUENO, CÉLIA MARIA CAROLINO PIRES

Resumo

Nosso estudo tem por objetivo investigar o Currículo de Educação de Jovens e Adultos. O referencial teórico baseia-se em trabalhos de Bishop (1999, 2002) acerca do Currículo de Matemática em uma perspectiva cultural, os estudos de Pires (2000) a respeito da organização curricular e Skovsmose (2010) com estudos referentes a critérios de escolha dos contextos dentro de um ambiente de aprendizagem em Matemática. O trabalho caracteriza-se por pesquisa qualitativa do tipo estudo de caso. Os dados coletados a partir do trabalho de campo, do material de análise e observação às aulas de Matemática em uma turma da Educação de Jovens e Adultos, com foco na postura do professor ao selecionar e desenvolver os conteúdos propostos. Dessa forma  partir dos dados coletados e da análise realizada, espera-se que os resultados obtidos possam ser traduzidos em propostas que orientem e fomentem a reflexão do professor frente ao currículo de Matemática para a EJA, contribuindo para um processo reflexivo.
Palavras-chave: educação de jovens e adultos; currículo de matemática.

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quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Filosofia da Educação Matemática

Práticas matemáticas: contribuições sóciofilosóficas para a Educação Matemática
 Denise Silva Vilela
 Resumo: O intuito deste estudo consiste em compreender as matemáticas como práticas sociais, ou seja, em elaborar teoricamente a concepção de práticas matemáticas. O ponto de partida é um estudo anterior, em que se observa a ocorrência de diversas adjetivações da palavra matemática em publicações e pesquisas acadêmicas recentes da área da Educação Matemática. As adjetivações são interpretadas como diferentes jogos de linguagem, com as devidas semelhanças de família, no sentido dado por Wittgenstein às expressões. Acrescenta-se à leitura filosófica das adjetivações uma abordagem sociológica por meio de conceitos de Bourdieu, cuja concepção de ciência é referência para compreensão das matemáticas como práticas sociais, em que haveria uma lógica da situação que determina normas e formas específicas de fazer matemática. 
Palavras-chave: prática social; jogos de linguagem; filosofia da Educação Matemática; Wittgenstein; Bourdieu. 

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Educação Matemática Crítica

Guetorização e globalização: um desafio para a Educação Matemática
Ole Skovsmose

Resumo

Acredito que a discussão sobre a educação matemática pode ser relacionada com a discussão sobre a globalização e, portanto, também com a da guetorização, já que julgo ser esta um aspecto da globalização. Conhecimento e desenvolvimento de conhecimento podem ser vistos como coisas às quais se atribui valor. Isto é certamente proposto pela teoria do valor relativo ao conhecimento de Daniel Bell. Entrentanto, a valorização do conhecimento tem raízes profundas no movimento do Iluminismo - aqui concebido de forma ampla -, que se caracteriza pela idéia de que o progresso sociopolítico pode ser assegurado pelo progresso do conhecimento — e do conhecimento científico, em particular. Este pressuposto do Iluminismo é questionável, e agora com boas evidências, já que o conhecimento científico, incluindo o conhecimento matemático, é capaz de “maravilhas”, bem como de “horrores”. Isto nos leva a uma situação aporética com respeito ao conhecimento. Devemos abandonar a idéia de que qualquer avanço cego do conhecimento (científico) constitui um motor para o “progresso”. Como conseqüência, não podemos construir uma educação matemática com base no pressuposto simplista de que isso implicará o bem final para aqueles nela envolvidos. Dessa forma, o papel efetivo a ser desempenhado pela educação matemática dependerá dos contextos nos quais ela estará se desenvolvendo. Considero crítico o papel sociopolítico desempenhado pela educação matemática. Com isso, quero dizer, primeiro, que, o que a educação matemática está fazendo é algo que merece atenção e consideração. A educação matemática pode produzir diferenças para certos grupos de pessoas. Por intermédio da matemática, é possível estratificar e propiciar diferentes oportunidades de vida a diferentes grupos de pessoas. A educação matemática constitui um elemento indispensável para o desenvolvimento sociotecnológico. Em segundo lugar, acredito que a educação matemática é crítica, no sentido de que ela não tem uma característica essencialista que possa garantir que o seu efetivo papel sociopolítico cumpra certas funções atrativas, tais como as estipuladas nos objetivos comuns dos currículos. A educação matemática poderia servir para o desenvolvimento adicional de uma preocupação com a democracia, tentando promover, desse modo, a inclusão social. Ela poderia, entretanto, provocar a exclusão social. Isto me leva a considerar a importância da educação matemática crítica. 

Palavras-chave: Educação matemática crítica; globalização; aporismo; incerteza


Leitura Complementar sobre o tema: 
Educação matemática crítica
Marcio Bennemann, Norma Suely Gomes Allevato

Resumo

Neste trabalho, de natureza teórica, identificamos os fundamentos da Educação Matemática Crítica (EMC) segundo as concepções de Ole Skovsmose. Por meio da análise de seus textos identificamos suas premissas com relação à EMC, as quais põem em pauta uma série de discussões relativas ao papel sociopolítico da Educação Matemática. Nossas análises partiram do entendimento do quadro atual presente nas aulas de Matemática, reconhecido como tradicional, seguindo em direção a reflexões sobre a necessidade de uma postura democrática em que o poder formatador da Matemática precisa ser identificado e conhecido. A relação entre professor e aluno deve ser necessariamente democrática, baseada no diálogo buscando desenvolver a capacidade de interagir em situações sociais e políticas estruturadas pela Matemática.
Palavras-chave: Educação Matemática; Educação Crítica; Educação Matemática Crítica.

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Comunidades de prática e Educação Matemática

A educação matemática como fenómeno emergente: desafios e perspectivas possíveis
João Filipe Matos[1]
Resumo: Neste artigo discuto uma perspectiva sobre a educação matemática em que esta é encarada como fenómeno emergente. Para isso, começo por focar o que são na minha perspectiva as finalidades da matemática escolar e, através de exemplos, distingo o que se poderá chamar de “ensinar matemática” da ideia de “educar matematicamente”. Partindo dos trabalhos de Jean Lave e Etienne Wenger, de seguida desenvolvo a ideia de design para a educação matemática como meio de criar condições que favoreçam certas formas de participação em comunidades de prática encarando a aprendizagem como parte integrante das práticas sociais e retirando daí implicações para o entendimento da educação matemática como fenómeno emergente. Nessa discussão assume papel muito importante a noção de pertença. Finalmente, aponto alguns desafios e possibilidades de desenvolvimento destas ideias a nível curricular e ao nível da formação de professores de educação matemática.
Palavras chave: educação matemática; aprendizagem; design; comunidades de prática.
Ainda as finalidades da educação matemática na escola
Dentro das finalidades da educação matemática inclui-se o desenvolvimento do poder dos alunos e dos indivíduos em sociedade, quer para ultrapassar barreiras do seu desenvolvimento em termos de educação e emprego, quer no sentido de aumentar a sua auto-determinação e o seu envolvimento crítico na cidadania social. A finalidade última da educação é a mudança social em direcção a uma sociedade mais justa e mais igualitária. Na prática escolar isto significa o questionamento permanente e sistemático, abrindo espaços de discussão e permitindo (e encorajando) o conflito de opiniões e pontos de vista, o questionamento dos temas matemáticos e da sua relevância e a negociação de objectivos partilhados. Pode-se argumentar-se contra este tipo de abordagem dizendo que se pode tornar facilmente em propaganda política barata e demagógica. Pode, de facto. E isso apenas acentua a questão da responsabilidade do professor buscando a discussão das coisas, a apresentação de pontos de vista contraditórios, explorando os espaços de questionamento e estimulando a discussão acalorada em vez de procurar consensos e apresentar a “boa visão” (do professor). Hoje em dia os jovens cada vez menos aceitam passivamente as opiniões dos adultos e dos seus professores pelo que é tremendamente maior o benefício desta abordagem se comparada com o risco de deixar aos alunos a ideia de que os saberes que a escola lhes trás se apresentam neutros e despidos de qualquer relação com o respectivo campo de produção e com as pessoas que os produzem e usam. Equacionar o ensino escolar da matemática como a transmissão de factos matemáticos às crianças e aos jovens não faz já mais sentido no mundo actual. Mas vale a pena insistir na argumentação a favor desta ideia. Primeiro, embora a matemática esteja cada vez mais presente em todos os fenómenos sociais, isto é, cada vez mais a sociedade seja regulada por modelos matemáticos complexos, é também verdade que cada vez menos o cidadão tem que conhecer a matemática que suporta esses modelos. O que lhe é exigido cada vez mais é a capacidade de saber lidar com esses modelos, desocultá-los, perceber a sua presença, ser crítico relativamente aos modos como são aceites na sociedade, perceber as intenções e os modos como são produzidos, etc. Segundo, o ênfase deve ser colocado na educação matemática (dos jovens) e não no ensino de matemática. No editorial do número temático da revista Quadrante sobre Educação Matemática e Cidadania (Matos, 2002) argumentei que a disciplina de Matemática deve ser urgentemente eliminada dos currículos do ensino básico[2] . Em vez da disciplina de matemática proponho a criação da disciplina de educação matemática com o objectivo essencial de contribuir para o desenvolvimento de um ponto de vista matemático sobre as coisas[3] . Isto significa naturalmente que as crianças precisarão de conhecer alguns factos matemáticos mas significa também que o essencial da disciplina não será a matemática mas o seu uso como um dos recursos estruturantes do pensamento, da reflexão e da acção. E claro que esta proposta é acompanhada de implicações importantes sobre a avaliação escolar em matemática que tem que deixar de ser entendida como sinónimo de classificação[4] . Mas a questão principal é que a escola, ao encarar o seu papel como o de educar os alunos, tire daí as implicações para a área da matemática assumindo a educação matemática dos alunos de facto como a prioridade. Terceiro, um movimento de alteração das perspectivas sobre as finalidades da matemática escolar no sentido de criar uma cultura de educação matemática visando a   participação dos jovens na construção e sustentação de uma sociedade democrática, tem que ser enquadrado numa problematização mais alargada da escola e do seu papel na educação dos jovens. Provavelmente, muitas das questões que aqui coloco relativamente à matemática escolar poderiam (deveriam) ser colocadas em relação a outras disciplinas ou até a à sua totalidade. Equacionar as questões da educação matemática de um modo isolado fora de uma discussão das funções da escola pode trazer o risco de se estar a criar novos modos de operacionalizar a sua função reguladora em vez do carácter emancipatório que deve assumir. O que é educar matematicamente? Ao distinguir entre ensinar matemática e educar matematicamente estou a colocar em confronto duas perspectivas. Aquela que parece ler-se nas entrelinhas de algumas visões sobre a didáctica da matemática coloca o ensino da matemática como incidindo essencialmente na tarefa de fazer com os alunos aprendam matemática, ponto final (entendendo-se que aprender matemática significa conhecer factos matemáticos). Nesta visão, educar matematicamente parece ser entendido como fornecer aos alunos factos matemáticos recontextualizados e reificados na prática escolar com o argumento de que ou serão úteis noutras disciplinas ou serão úteis alguma vez na vida. Pode ler-se aqui alguns elementos do que Skovsmose e Valero (2002) chamam a “ressonância intrínseca” - a crença de que as aprendizagens matemáticas tradicionais farão (algum dia) ressonância no desenvolvimento pessoal e social dos jovens e dos adultos. Um dos maiores erros desta perspectiva é ignorar que uma grande parte dos jovens será tacitamente excluída do acesso a outras formas de conhecimento e a outras posições e empregos. Numa outra perspectiva pode entender-se que a matemática constitui um instrumento que confere uma dimensão muitíssimo potente aos modelos que a sociedade cria e adopta. Como tal, a educação deve incluir formas de aprender a lidar com esses modelos. Uma parte dessa aprendizagem pode resultar de educar matematicamente os jovens. E educar matematicamente inclui levar os alunos a apropriar-se de modos de entender matematicamente as situações do dia-a-dia[5]. Para elaborar sobre esta questão vou utilizar um exemplo de um problema típico dos livros de texto do ensino elementar. Exemplo
Uma viagem de autocarro do Campo Grande para Rossio custa €1 por pessoa. Quanto paga uma família de 4 pessoas? A pergunta colocada pode ser lida apenas ao nível da aritmética[6]. A mensagem que tradicionalmente se passa aos alunos é que é preciso descobrir o método certo para resolver o problema: 4 x €1 = €4. Mas claro que se pode ler o problema do ponto de vista da questão “quanto deve custar a viagem da família de quatro pessoas”. Em Lisboa, a densidade do trânsito é insuportável, uma imensa maioria de pessoas utiliza o automóvel próprio para se deslocar. Os autocarros não são tão eficientes como seria desejável e as viagens de autocarro ainda são demoradas. Para ir do Campo Grande ao Rossio demora-se cerca de 30 minutos se não houver muito trânsito[7]. Há que encorajar que as pessoas se desloquem de autocarro. Os preços deveriam baixar e os incentivos à sua utilização deveriam ser maiores. Uma família de quatro pessoas deveria ter uma redução no preço já que constitui uma unidade (supostamente) a valorizar pela sociedade (quer por se tratar de uma agregado familiar quer pelo simples facto de viajar em conjunto). Uma perspectiva de educação matemática no sentido que mencionei acima tomaria este problema como uma questão susceptível de análise mais global uma vez que os preços e a eficácia dos transportes públicos e privados numa cidade são elementos que ajudam a definir a mobilidade dos cidadãos. Como tal a área temática dos transportes poderia ser entendida como uma dos pontos essenciais de desenvolvimento do trabalho num determinado período. Essencial tornar-se-ia não aprender o cálculo aritmético mas utilizá-lo (e por isso, e com isso, aprendendo-o) na análise de uma prática do dia-a-dia: deslocarmo-nos de um lado para o outro utilizando algum meio auxiliar como o autocarro. Essencial passaria igualmente a ser o   questionamento do modelo da proporcionalidade que se aplica socialmente de modo quase universal e que formata imensamente a forma de pensar dos humanos[8]. Este exemplo serve para pensar na necessidade de abandonar a ideia de que educar matematicamente os alunos é conduzi-los à ‘aquisição de conceitos e técnicas da matemática’ enquanto ciência produzida pelos matemáticos. Aliás, a metáfora da aquisição de saberes está fortemente ligada à ideia de que a função da escola é exactamente fornecer ou disponibilizar saberes. Uma perspectiva que assume a participação das pessoas como um elemento chave na construção do conhecimento, reclama que a função da escola é constituir um campo de construção de saberes, uma comunidade com práticas próprias (que não se confundem com as práticas dos matemáticos ou com outras práticas profissionais e que são essencialmente práticas escolares) que é preciso questionar em função do tipo de finalidades da educação matemática que discuti acima.
Sobre o mito da neutralidade da matemática e da educação matemática
As perspectivas positivistas reclamam que o conhecimento, embora produto humano, é completamente separado das pessoas que o produzem, em si mesmo neutro, isento de valores e objectivo. E desse modo reservam a aprendizagem à ideia de descoberta de factos estáticos, da sua descrição e classificação. Quero aqui contrariar essa ideia. Para começar, é importante realçar que o conhecimento matemático é continuamente criado e recriado à medida que as pessoas actuam e reflectem sobre o mundo. O conhecimento não é fixado de modo permanente nas propriedades abstractas dos objectos matemáticos. Adquirir conhecimento e produzir conhecimento são dois momentos de um mesmo ciclo. Esta ideia envolve a noção de que o conhecimento é um produto emergente da acção e da interacção da consciência humana e da realidade. Através da acção e reflexão, interagindo dialeticamente para recriar a percepção e descrição da realidade, criam-se práticas que envolvem aprendizagens de modo natural. Mas estas práticas não são neutras. O conhecimento matemático não existe fora dos modos como é usado, fora dos interesses para os quais é usado e das razões pelas quais é usado. Do mesmo modo, a educação matemática ou o ensino da matemática que é proporcionado aos alunos não existe fora dos modos, interesses e razões que lhe estão subjacentes (tenhamos ou não consciência delas). A matemática (enquanto disciplina escolar) contribui fortemente para a exclusão escolar e social de um número elevadíssimos de crianças e de jovens. Vemos, ouvimos e lemos esses factos diariamente na imprensa generalista e especializada. Não podemos ignorar a nossa responsabilidade no papel de filtro social que foi sendo criado com o ensino da matemática na escola básica e secundária[9]. Não se pode mais limitar o papel do professor a ensinar matemática. É essencial reconhecer a dimensão social, ética e política no ensino da matemática e assumir que não existe neutralidade nesse ensino. O que isto exige aos professores e aos educadores é uma questão que merece análise própria. Aprendizagem como participação em comunidades e prática O argumento principal deste texto é a ideia de que a educação matemática das pessoas constitui um fenómeno emergente das práticas em que são imersas e em que participam. Isto significa que, tal como Lave e Wenger (1991), assumo a ideia de que as aprendizagens são elementos integrantes das práticas sociais. Mas equacionar a aprendizagem como participação em comunidades de prática obriga a discutir mais em pormenor este conceito e a desocultar alguns dos conceitos associados. A noção de comunidade de prática tal como é utilizada nas perspectivas teóricas que consideram a aprendizagem como fenómeno situado (Lave e Wenger, 1991; Wenger, 1998) surge como útil na discussão da ideia de educação matemática como fenómeno emergente. Por um lado, a ideia de comunidade de prática pode ser entendida como uma ferramenta analítica que permite encontrar um certo olhar sobre as aprendizagens; por outro lado, pode ser usada para avançar princípios que constituam um possível design para as práticas escolares em educação matemática, de modo a permitir organizar princípios de acção e esforços para cultivar e sustentar comunidades onde a participação implique aprendizagens significativas em educação matemática[10]. De acordo com Wenger (1998), “as comunidades de prática dizem respeito ao conteúdo, (…) não à forma” (p. 229). Mas apesar disso, e apesar das múltiplas formas que podem tomar, há três elementos estruturais nas comunidades de prática (Wenger, McDermott & Snyder, 2002): o domínio, a comunidade e a prática. O domínio é aquilo que cria uma base comum e um sentido de desenvolvimento de uma identidade legitimando a comunidade através da “afirmação dos seus propósitos e valor aos membros dessa comunidade” (p.27). Trata-se do elemento principal de inspiração dos membros para contribuírem e para participarem de modo a fazerem sentido dos significados das suas acções e das suas iniciativas. No entanto, o domínio não é um conjunto fixo de problemas, trata-se de algo que acompanha a evolução do mundo social e da própria comunidade. No que respeita ao ensino e aprendizagem da matemática, o domínio tem sido sistematicamente entendido como matemática escolar[11] mas é necessário colocar o desafio de cada vez o definir mais como ‘educação matemática’ (no sentido que acima discuti). Uma alteração do domínio implicará necessariamente alterações mas formas como a prática e a comunidade se desenvolvem. “A comunidade é aquilo que constitui a fabricação social[12] da aprendizagem” (p.28). Assumindo que a aprendizagem é uma questão essencialmente de pertença e de participação, a comunidade torna-se um elemento central como grupo de pessoas que interagem, aprendem conjuntamente, constroem relações entre si, desenvolvem um sentido de engajamento mútuo e de pertença. Mas a ideia de comunidade não implica que exista homogeneidade. Se as interacções a longo prazo tendem a criar uma “história comum e uma identidade comunitária” (p. 35), ao mesmo tempo ela encoraja a diferenciação entre os membros que assumem papéis distintos e criam as suas diversas especialidades e estilos. Um dos aspectos mais relevantes no desenvolvimento de comunidades em educação matemática é a necessidade de uma massa crítica de pessoas que sustentem a participação mas deve ter-se a noção de que se a comunidade atinge  uma dimensão demasiado grande isso pode igualmente inibir a participação[13] . À medida que a comunidade evolui, a sua natureza muda e é nesse quadro que assumem grande importância as questões de liderança na criação de uma atmosfera e ao mesmo tempo de um foco que favoreçam práticas conducentes às aprendizagens desejadas. A prática é constituída por um conjunto de “esquemas de trabalho, ideias, informação, estilos, linguagem, histórias e documentos que são partilhados pelos membros da comunidade[14]. Enquanto que o domínio denota o tópico em que a comunidade se foca, a prática é o conhecimento específico que a comunidade desenvolve, partilha e mantém” (p.29). A prática evolui como um “produto colectivo” integrado no trabalho dos participantes organizando o conhecimento em formas que o tornam útil para esses participantes na medida em que reflecte a sua perspectiva. Compreender a relevância da ideia de comunidade de prática como elemento que permite ver a educação matemática como fenómeno emergente, exige ir um pouco mais longe na caracterização daquilo que está envolvido na ideia de pertença a comunidades de prática.
Modos de pertença em comunidades de prática
Uma perspectiva situada entende a aprendizagem como uma experiência vivencial que faz parte integrante da participação em comunidades de prática. A participação é algo emergente e intencional que não pode ser prescrito nem legislado do mesmo modo que não pode ser completamente planeada mas apenas “designed for”[15], isto é, facilitada ou frustrada. Mas é possível pensar em modos de enriquecer a atmosfera da comunidade onde se pretende que ocorram determinadas aprendizagens. É neste ponto que faz sentido falar de design mas ao mesmo tempo chamar a atenção para o facto de que a prática subsequente à elaboração de um determinado design não é o resultado desse design mas sim a reacção ao design. É neste mesmo sentido que não se pode entender a  aprendizagem escolar como o resultado do ensino feito pelo professor, não existe tal causalidade entre ensino e aprendizagem na escola. A aprendizagem ocorre na medida em que os alunos estão envolvidos em formas de participação em práticas que implicam essas aprendizagens que são elas próprios elementos integrantes das práticas. O design – entendido aqui como “arquitectura para aprendizagens” (Wenger et al, 2002) – deve oferecer possibilidades que favoreçam diversos modos de pertença que as pessoas colocam em acção quando precisam ou querem[16] ser membros de uma comunidade. Discuto de seguida em pormenor os três modos de pertença avançados por Wenger (1998) que podem ajudar a pensar o design de comunidades de prática em que os participantes se tornem matematicamente educados. O engajamento mútuo. O engajamento de crianças e adultos numa dada prática não é apenas uma questão de actividade. Se se pretende ver o desenvolvimento de uma comunidade com determinadas características (com o objectivo de criar um certo tipo de ambiente com uma certa perspectiva do que é ser educado matematicamente) não é suficiente proporcionar os recursos entendidos como adequados. A construção de uma comunidade envolve ajudar os participantes a criar infra-estruturas de engajamento que devem incluir a) mutualidade, b) competência e c) continuidade (Wenger, 1998). A mutualidade é certamente uma condição para que a prática tenha lugar e para que a comunidade exista. As condições para o desenvolvimento de mutualidade na comunidade incluem (i) elementos que facilitem as interacções (e.g. espaços físicos e virtuais, comunicação, tempo), (ii) haver tarefas conjuntas definidas colegialmente (e.g. pontos de entrada para projectos específicos, agendas transparentes), e (iii) permitir a periferia na participação (e.g. criando oportunidades para o engajamento das pessoas em encontros de natureza mais informal e para participar em graus diferentes nas actividades de acordo com as decisões tomadas em espaços com esse objectivo). Uma das implicações destas ideias é que um conjunto de alunos a trabalhar na escola com um ou dois professores em educação matemática tem na sua responsabilidade a definição das metas e das formas de trabalhar para as atingir. Em segundo lugar, a competência. Não se trata de algo que possa ser pré-definido ou daquilo que significa ser matematicamente competente. A competência é criada e definida na acção. Por esta razão, os participantes numa comunidade de prática devem ter oportunidades para actuar as suas competências, incluindo i) um sentido de que existe espaço para tomarem iniciativa e condições para que essas iniciativas se tornem patentes a outros (e.g. criando ocasiões para aplicar certos skills, criando e partilhando soluções para problemas específicos, propondo e tomando decisões quer em pequeno grupo quer a nível mais global), (ii) a compreensão de que existem momentos de dar contas do trabalho feito (e.g. apresentando o seu trabalho a outros, discutindo, exercendo e sujeitando-se a uma avaliação crítica por parte dos outros; identificando diferentes estilos de fazer as coisas e confrontá-las com as suas próprias tirando daí implicações; criando espaço e disponibilidade que encorajem a expressão da diferença e integrando estilos e formas de trabalho diferentes; ajudando a criar pontos de entrada para a negociação e desenvolvimento de empreendimentos comuns), e (iii) colocando em jogo as ferramentas adequadas, quer em termos de artefactos físicos como de artefactos conceptuais que ajudem a sustentar as competências dos participantes (e.g. conceitos e linguagem que ajude ao desenvolvimento de um reportório comum e partilhado entre os participantes). Em terceiro lugar, e igualmente importante, é o elemento continuidade uma vez que as pessoas participando na comunidade necessitam de sentir que a prática é sustentada (e que eles contribuem para essa sustentação) e que existe um programa estável de actividades. A continuidade da prática é sustentada em duas dimensões: (i) através da produção de memórias reificativas (e.g. construindo e mantendo a história da prática através de registos e de partilha da informação sobre as actividades em curso, documentando os modos como as coisas vão sendo feitas, discutindo e fazendo representações dos resultados da discussão), e (ii) produzindo memórias participativas (e.g. partilhando e discutindo histórias da prática, criando espaços de interacção que permitam que as pessoas participem na negociação do modo como as histórias são contadas e os acontecimentos são relatados na comunidade, criando formas de demonstrar os seus desenvolvimentos).
Imaginação. Tal como referi anteriormente, não é suficiente oferecer condições físicas para que as pessoas participem numa dada prática. É fundamental que os participantes tenham algumas pistas que lhes permitam reclamar a sua imaginação de modo a tornar possível que a aprendizagem acompanhe o contexto mais vasto e que as pessoas encontrem referências adequadas (e úteis) e adquiram um sentimento de pertença à comunidade mais vasta. É por esta razão que as práticas em educação matemática devem envolver possibilidades de orientação, reflexão e exploração. Os participantes precisam de ser capazes de se localizar a si mesmos dado que isso poderá reforçar um sentimento de pertença à comunidade. A importância da orientação reside simultaneamente no modo como pode ajudar a formatar o tipo e grau de participação e pelo facto de que as pessoas se tornarão mais capazes de fazer sentido dos significados da prática. Um sentido de orientação obriga a que exista uma preocupação em criar possibilidades de que as pessoas façam sentido do seu posicionamento no espaço da comunidade e ao mesmo tempo ajudando-as a localizarem no tempo (e.g. definindo momentos de avaliação das trajectórias que se vão observando), criando possibilidades para as pessoas se localizem nos significados da prática (e.g. através da partilha de histórias da prática) e se localizem nas relações de poder inerentes a qualquer prática. Ao mesmo tempo, os alunos e os professores deve ter tempo e oportunidade para serem capazes de comparar com outras práticas através da reflexão – procurar e representar padrões de actividade e de competência e partilhá-los com os outros. Como forma de alargar a visão do futuro as pessoas devem ter as ferramentas necessárias para pensar em trajectórias possíveis da prática e de criar cenários hipotéticos e simulações, virtualmente inventando o futuro.
Alinhamento. As ideias de orientação e reflexão estão estreitamente ligadas à noção de alinhamento. As comunidades de prática necessitam de ter a possibilidade de ligar as suas práticas a empreendimentos mais vastos. Uma ideia de alinhamento tornará mais possível que alguns efeitos aconteçam e que as pessoas vejam o seu papel no âmbito de outros contextos mais alargados e em ligação com outras comunidades e outros sistemas de actividade[17]. Wenger (1998) sugere que a convergência e a coordenação constituem as duas dimensões mais importantes neste ponto. A convergência implica uma preocupação não apenas com as tarefas comuns mais simples mas também a necessidade de encontrar interesses e focos comuns de um âmbito mais alargado. Por outro lado, os participantes devem partilhar um telos construído sobre uma compreensão comum e partilhada das situações que vivem, uma partilha de valores e de princípios num sentido que favoreça a convergência de finalidades. A coordenação é um passo crucial nas comunidades construídas sobre a ideia de eficiência mas torna-se igualmente um elemento emergente em todo o tipo de comunidades exista ou não uma coordenação oficial. Inclui a definição de métodos de trabalho, canais de comunicação, recursos para estabelecer pontes para outras comunidades e feedback.
A concluir
Uma noção de educação matemática que inclua a ideia de que a aprendizagem é uma parte integrante das práticas sociais e é constitutiva da participação das crianças e jovens em comunidades de prática, tem múltiplas implicações ao nível de (i) definição dos currículos no que respeita a metodologias de trabalho, áreas temáticas organizadoras das actividades e avaliação das aprendizagens, e (ii) definição de princípios base da formação de professores de educação matemática. Mas de mais é fundamental aprofundar a ideia de perspectivar a educação matemática como fenómeno emergente. Este aprofundamento obriga a pensar a natureza das práticas em que se pretende envolver os alunos como participantes na escola e a encontrar soluções para a dificuldade de antecipar as aprendizagens que se deseja ocorram nos alunos. Em última análise esta perspectiva decorre de pensar a educação matemática em duas dimensões complementares que constituem as práticas escolares em matemática: uma aproximação ao pensar matematicamente e a uma forma de organizar a experiência incluindo um ponto de vista matemático. Este tipo de agenda depara igualmente com dificuldades decorrentes do facto de pretender realizar uma educação matemática em instituições fundadas sobre o utilitarismo. Como pergunta Caldas (1999) ‘como ser educador quando o que se exige [na escola] é um professor burocrata?’

Referências
Caldas, J. (1999). A intervenção do artista na escola. In Caldas, J. & Pacheco, N. (Org) Teatro na Escola. A Nostalgia do Inefável (pp.9-15). Porto: Quinta Parede.
Knijnik, G. (1996). Exclusão e Resistência – Educação Matemática e Legitimidade Cultural. Porto Alegre: Artes Médicas.
Lave, J. & Wenger, E. (1991). Situated Learning: Legitimate Peripheral Participation. Cambridge: Cambridge University Press.
Matos, J.F. (2002). Educação Matemática e Cidadania. Quadrante, vol.11, 1, pp.1-6.
Santos, M.P. (2003). Encontros e Esperas com os Ardinas de Cabo Verde - Aprendizagem e Matemática numa Prática Social. Tese de Doutoramento, Departamento de Educação da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. (no prelo)
Skovsmose, O. & Valero, P. (2002). Quebrando a neutralidade política: o compromisso crítico entre a educação e a democracia. Quadrante, vol.11, 1, pp.7-28.
Wenger, E. (1998). Communities of Practice – learning, meaning and identity. Cambridge: Cambridge University Press.
Wenger, E., McDermott, R. & Snyder, W. (2002). Cultivating Communities of Practice. Boston: Harvard Business School Press.




[1] Centro de Investigação em Educação, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa
[2] Em Portugal o ensino básico compreende os anos de escolaridade 1 a 9 (aproximadamente 6 a 15 anos de idade num percurso escolar sem repetições) e é obrigatório para todas as crianças.
[3] A mudança de nome (se não se ficar só por aí) pode ser muito importante para dar sinais aos participantes nas práticas escolares. Em Portugal a disciplina de Ginástica foi substituída nos anos setenta pela disciplina de Educação Física; muito mais do que uma mudança de nome, tratou-se da introdução de uma conjunto de elementos que trouxeram uma vocação muito mais relevante a essa disciplina através de dimensões tais como a educação motora, saúde e higiene do corpo, o desporto nas suas diversas componentes, etc.
[4]  A avaliação das aprendizagens parece continuar a ser largamente vista como um processo de legitimar uma dada classificação a ser atribuída pelo professor a cada um dos alunos. Esta não é obviamente a vocação da avaliação na escola que tem que assumir o seu papel de elemento constitutivo do processo de aprender. Em última análise as práticas avaliativas que visam primordialmente a classificação apenas contribuem para a seriação dos alunos e consequentemente para a exclusão escolar e social de muitos deles.
[5] O dia-a-dia (everyday) deve ser entendido no sentido de Jean Lave – não o que se passa necessariamente fora da escola mas todo o conjunto de actividades que faz parte da vida diária das pessoas. Curiosamente, para os alunos, de facto, o dia-a-dia é essencialmente o viver a escola.
[6] A questão seria isomorfa de “Uma caneta custa €1. Quanto custam 4 canetas?” mas a história que envolve o problema é relevante se assim quisermos, quer no caso do problema da viagem em autocarro quer no caso da compra das canetas. A questão está mais no modo como queremos posicionar-nos relativamente às finalidades do trabalho que estamos a fazer com os alunos do que com a objectividade do problema colocado.
[7] Claro que um lisboeta perguntaria de imediato “mas porque é que não vão de Metro, há Metro directo do Campo Grande para o Rossio” o que levantaria outro conjunto de questões ligadas à rede de Metro de Lisboa, ao modo como cobre algumas zonas da cidade, ao modo como se tem desenvolvido, às razões que têm levado a que a expansão da rede seja feita por umas zonas e não por outras, etc, abrindo um campo de análise em que um ponto de vista matemático ocuparia também um lugar muito importante.
[8] O uso do modelo da proporcionalidade é especialmente forte nas sociedades e sobretudo nas actividades comerciais. Encontramos múltipla evidência da sua utilização ora abusiva ora de um modo quase cego quando, por exemplo, damos connosco a pensar que o supermercado nos faz um ‘desconto’ quando nos propõe a compra de um conjunto de embalagens nas tradicionais promoções “Leve 3, Pague 2”. Desmontar e analisar criticamente este tipo de pensamento matemático primário é um dos elementos que podem integrar uma proposta de uma disciplina de educação matemática.
[9] Falo aqui com referência à situação actual em Portugal mas reconheço que é uma situação com contornos diferentes nos diversos países. E chamo a atenção para o facto de se dever equacionar não apenas o insucesso medido pelas reprovações e abandono escolares (que são já dramáticos, por exemplo, ao nível do 9º ano de escolaridade atingindo 40% nalgumas regiões) mas igualmente os modos como o simples facto de certas opções profissionais conterem a disciplina de matemática condicionar de modo fulminante muito jovens na escolha de uma via de estudo.
[10] Não pretendo aqui dizer o que se deve ou como se deve fazer, para estimular o desenvolvimento de comunidades de prática promotoras de educação matemática. O meu argumento essencial é dar conta de como o design de comunidades de prática de acordo com Wenger a tal (2002) pode ser pensado de modo a que isso ajude o leitor a fazer sentido da ideia de educação matemática como fenómeno emergemte.
[11] Tradicionalmente os currículos em matemática na escola básica e secundária são definidos tendo como eixos estruturantes áreas clássicas da matemática tais como Geometria, Álgebra, Estatística, fazendo passar aos professores e aos alunos a mensagem de que esses são os elementos que constituem o domínio de trabalho. Muitos matemáticos e educadores matemáticos reclamam que, ao nível do ensino básico e secundário, esses currículos não tratam efectivamente de matemática mas de matemática escolar. Isto acontece não só porque diversos processos e definições não são correctas do ponto de vista matemático (são aceites naqueles níveis de ensino apenas por razões pedagógicas) mas também porque o campo de produção dos saberes matemáticos não é de facto a escola básica e secundária (mas sim as comunidades dos matemáticos) havendo um processo de recontextualização escolar desses saberes que leva inevitavelmente a uma transformação da sua natureza.
[12] Wenger et al (2002) utilizam a expressão social fabric colocando o ênfase na ideia de que a aprendizagem é não só constitutiva da comunidade mas também um produto da comunidade.

[13] A questão da dimensão da comunidade ou do grupo (número de membros, dispersão de interesses e interacções privilegiadas, etc) é relevante quer no aspecto escolar da educação matemática (por exemplo, relativamente ao número de alunos de uma turma ou de uma escola) mas também na dimensão do desenvolvimento dos professores e dos educadores matemáticos (por exemplo, as opções estratégicas da preparação da série de Conferências Mathematics Education and Society colocam como primeira prioridade o estabelecimento de grupos de cerca de 15 participantes que se mantêm discutindo durante uma semana inteira, ao invés de colocar o centro na diversidade de apresentação de comunicações avulso ou nas sessões plenárias.
[14] Naturalmente que nesta discussão, a ideia de prática não se opõe a teoria como muitas vezes se entende. O espaço desta comunicação não permite um desenvolvimento da ideia de prática; uma discussão muito interessante deste tema com referência à educação matemática pode ser encontrada em Santos (2003).
[15] Wenger et al (2002) escrevem “it can not be designed; it can only be designed for” (p. 236).

[16] Tipicamente a sociedade exige que as crianças vão à escola, elas não têm opção, e isso é entendido socialmente como desejável – as crianças têm que ir à escola. Entendendo obviamente a natureza política desta obrigatoriedade no sentido da formação dos jovens para uma vida na sociedade tal como a conhecemos, isso não deve ser no entanto confundido com pertença nem como sinónimo de participação da pessoa. A participação no sentido que discuto neste texto é algo em que não faz sentido falar de obrigatoriedade.

[17] Um exemplo notável do poder de um alinhamento forte dos participantes envolvidos em práticas sociais é dado por Gelsa Knijnik (1996) ao descrever e analisar os interfaces entre os saberes populares e os saberes académicos e as relações de poder associadas ao saber.

Avaliação da disciplina

Avaliação:
1. Desenvolvimento de projeto de pesquisa sobre um dos temas a escolher:
a) Narrativas autobiográficas de estudantes da EJA e sua relação com a Matemática ao longo da vida;
b) Comunidades de prática
c) Metodologias ativas de ensino
d) Etnomatemática.

e) Cultura matemática.



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Etnomatemática - leitura complementar

A construção de saberes matemáticos entre jovens e adultos do Morro de São Carlos

Maria Cecilia de Castello Branco Fantinato

http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n27/n27a07

Atividade referente a 11/09/2017

Etnomatemática - Leitura complementar

Abordagens Atuais do Programa Etnomatemática: delineando um caminho para a ação pedagógica
Milton Rosa
Daniel C. Orey

Resumo
Apresentamos, neste artigo, as abordagens atuais para o programa etnomatemática, fundamentadas em estudos direcionados à perspectiva antropológico-etnográfica e à ação pedagógica.
No contexto atual, existe uma grande necessidade de que o programa etnomatemática seja identificado como um programa que busca as práticas de ensino-aprendizagem em matemática, as quais estão direcionadas à ação pedagógica.
Acreditamos que o grande desafio para os pesquisadores é elaborar estudos e práticas pedagógicas que estejam de acordo com os objetivos filosófico-teóricos deste programa. Assim, delineamos uma proposta curricular baseada no trivium literacia, materacia e tecnocracia, que permite desenvolver atividades escolares alicerçadas na perspectiva etnomatemática.
Palavras Chaves:
Ação Pedagógica. Etnomatemática. Práticas Pedagógicas. Currículo. Matematização

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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Etnomatemática e educação popular - Atividade referente a 11/09/2017

CURRÍCULO, ETNOMATEMÁTICA E EDUCAÇÃO POPULAR: um estudo em um assentamento do movimento sem terra
Gelsa Knijnik
Resumo

O presente ensaio descreve e analisa a terceira etapa de uma pesquisa realizada em um assentamento do Movimento Sem-Terra do Rio Grande do Sul, tendo como foco principal as conexões entre a Educação Popular e a vertente da Educação Matemática denominada Etnomatemática. Especificamente, ensaio focaliza as repercussões de um projeto pedagógico centrado em uma das atividades produtivas da comunidade (cultivo de alface), examinadas através das inter-relações estabelecidas pelos diferentes atores sociais envolvidos no processo: professora de Matemática e alunos da 7a série da escola do assentamento, famílias assentadas e o agrônomo que realiza o acompanhamento técnico. Os procedimentos e método utilizados na parte empírica da investigação envolveram observação direta e participante, diário de campo, realização de entrevistas e coleta de depoimentos. As inspirações teóricas do trabalho baseiam-se na literatura relativa à Educação Popular e à Etnomatemática.

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Etnomatemática

O Programa Etnomatemática: uma síntese
Ubiratan D’Ambrosio
RESUMO
O Programa Etnomatemática é um programa de pesquisa em história e filosofia da Matemática, com implicações pedagógicas, que se situa num quadro muito amplo. Seu objetivo maior é dar sentido a modos de saber e de fazer das várias culturas e reconhecer como e por que grupos de indivíduos, organizados como famílias, comunidades, profissões, tribos, nações e povos, executam suas práticas de natureza Matemática, tais como contar, medir, comparar, classificar. A dificuldade maior na pesquisa é a dificuldade que os pesquisadores sentem de se liberarem da postura disciplinar e, consequentemente, procuram explicar e entender o saber e o fazer de outras culturas segundo categorias próprias à Matemática Acadêmica. Inicialmente, negamos a visão simplista que uma melhor educação matemática pode, por si, melhorar a qualidade da vida e a dignidade humana. Não é suficiente. A matemática serve finalidades duais. É, de fato, um importante instrumento para melhorar a qualidade de vida e a dignidade nas relações humanas. Mas, ao mesmo tempo é o suporte dos instrumentos intelectuais e materiais que são próprios de uma cultura. Queremos manter o primeiro aspecto dessa dualidade, isto é, a matemática a serviço da qualidade de vida e da dignidade humanas, que são consequência dos valores de uma cultura. Mas ao mesmo tempo reconhece-se a necessidade de uma matemática que serve a objetivos ligados ao cotidiano. O grande desafio é como ensinar práticas e ideias da cultura dominante sem destruir os valores da cultura original. O Programa Etnomatemática procura responder a esse desafio.

Palavras-chave: Etnomatemática. Educação Matemática. Contextos Culturais.

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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Alfabetização matemática na perspectiva do letramento

Apropriação de práticas de numeramento na EJA: valores e discursos em disputa
Maria da Conceição Ferreira Reis Fonseca
Fernanda Maurício Simões
Resumo

Este artigo contempla questões da apropriação de práticas de numeramento no contexto escolar por estudantes jovens e adultos da educação básica. Consideramos essas práticas sociais que envolvem ideias, critérios e representações matemáticas como práticas de letramento, constituídas por modos de uso da língua escrita e informadas pelas relações que estabelecem com valores e conhecimentos relativos à cultura letrada. No âmbito do estudo aqui apresentado, analisamos as posições discursivas assumidas pelos sujeitos em interações em sala de aula ocorridas durante a correção de uma atividade de matemática em que se solicitava que os alunos indicassem a ordem de grandeza de alguns objetos e a expressão das medidas aproximadas no sistema métrico decimal. Enquanto a proposta escolar requeria a produção de estimativas em detrimento da referência em situações específicas, os estudantes produziram respostas que se apoiam em situações contextuais e buscam a precisão. A análise sugere que os processos de apropriação das práticas de numeramento escolares não se restringem a uma dimensão técnica, estando relacionados às maneiras de os sujeitos se apropriarem dos valores a elas vinculados. No jogo discursivo escolar, alunos e alunas assumem posições diversas, que ora se solidarizam com os modos de conhecer escolares, ora os questionam, colocando-se como sujeitos de aprendizagem, nos diversos modos de conhecer e se relacionar com o mundo.

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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O que é Matemática?

Fundamentação teórica para as perguntas primárias: O que é matemática? Por que ensinar? Como se ensina e como se aprende?[1]
Theoretical foundations to answer the primary questions: What’s mathematics? Why teach mathematics? How to teach and how people learn it?
Vera Clotilde Vanzetto Garcia[2]
RESUMO – O presente artigo oferece suporte teórico para questões primárias que estão no início de qualquer atividade docente em matemática: O que é matemática? Porque ensinar matemática? Como se aprende e como se ensina? O objetivo é contribuir para a formação do professor pesquisador nas áreas de Educação Matemática e Ensino de Matemática. O estudo concentrou-se no modelo teórico do Construtivismo Social, proposto pelo educador matemático inglês Paul Ernest, que opta pelos conceitos de “falibilismo” e “conversação” para conceber Matemática. Ensino para promover o “empowerment” e a “apreciação da Matemática”, desenvolvendo ideias da teoria de aprendizagem de Vygotsky e do ensino segundo a “Educação Matemática Crítica”.
Descriptores – Professor de Matemática pesquisador; Construtivismo Social; falibilismo; “empowerment”; conversação; Educação Matemática Crítica.
ABSTRACT – This paper offers theoretical basis to primary questions posed at the beginning of any mathematics teacher’s activity. What is mathematics? Why teach mathematics? How do we learn and how to teach mathematics? The aim is to contribute to mathematics practical researcher education. The study is concentrated on Social Construtivism theoretical model, as defined by Paul Ernest, English mathematics educator. The focus are “falibilism” and “conversation” to conceive Mathematics. Teach to favor “empowerment”, Vygotsky ideas as learning theory and Critical Mathematic Education as teaching ways.
Key words – Mathematics practical researcher; Social Constructivism; falibilism; empowerment; Critical Mathematic Education.

A Resolução do CNE/CP 1, de 18 de fevereiro de 2002, apresenta as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior e enfatiza a necessidade de associar o preparo do professor ao aprimoramento das práticas investigativas. O conhecimento de processos de investigação vai possibilitar o aperfeiçoamento das práticas pedagógicas, que devem ser desenvolvidas com ênfase nos procedimentos de observação e reflexão, visando atuação em situações contextualizadas. A área de Educação, tradicionalmente abriga pesquisadores cuja origem é a licenciatura em Matemática e que colocam em pauta questões relativas ao ensino. A área de Ensino de Ciências e Matemática, da CAPES abriu espaço para a organização de mestrados dirigidos para professores em exercício. Esses cursos prevêem a elaboração de um trabalho final de pesquisa, com desenvolvimento de processos ou produtos de natureza educacional, visando a melhoria do ensino na área específica. Ou seja, espera-se que o professor possa produzir conhecimento novo e reprodutível, tomando, como foco e alvo, seu próprio trabalho docente. Este texto se propõe a disponibilizar para o professor pesquisador iniciante fundamentos que possam embasar suas pesquisas, salientando a importância da base teórica para o desenvolvimento de um trabalho de qualidade. Partindo da análise da expressão-chave “professor pesquisador”, o texto remete para questões primárias que necessariamente antecedem qualquer atividade docente, seja de pesquisa ou de ensino. Pensar sobre tais questões leva à prática da filosofia da Educação Matemática e a reflexões sobre psicologia e sociologia. Existem múltiplas respostas, de acordo com linhas filosóficas, autores e concepções diversas. Por outro lado, na prática, a tendência é que o professor formule suas respostas próprias, em geral de forma um pouco vaga, intuitiva, muitas vezes repetindo slogans. No intuito de justificar tais intuições, este texto abre as portas para um estudo mais atento das possibilidades para responder às questões primárias, privilegiando e oferecendo, à análise crítica do professor, os aportes teóricos do filósofo e educador matemático inglês, Paul Ernest, com o modelo do Construtivismo Social, baseado nas propostas de Wittgenstein, Vygotsky e Lákatos.

Educação Matemática
“Mathematics Education understood in its simplest and most concrete sense concerns the activity or practice of teaching mathematics.” (ERNEST, 2004, p. 1)
No I Seminário Internacional de Educação Matemática (SIEM), em 1993, Educação Matemática é definida como área autônoma de conhecimento com objeto de estudo e pesquisa interdisciplinar, que diz respeito “ao processo de produção e aquisição do saber matemático, tanto mediante a prática pedagógica em todos os graus de ensino, quanto mediante outras práticas sociais” (SOUZA et al., 1995, p. 51). Segundo Souza et al (1995), o objeto formal de pesquisa desta área é o “sentido das falas matemáticas” (p.54), que fundamentam as práticas de ensino, e, no momento em que este objeto se caracteriza, define e limita, a Educação Matemática adquire estatuto de prática científica. Garnica (1998) institui a Educação Matemática como um “movimento” (p. 45), nas práticas sociais e, entre elas, na prática científica. Kilpatrik (1996) caracteriza Educa- ção Matemática como “campo profissional e científico” (p. 111-112).
A partir daí, pode-se pensar em Educação Matemática: a) como área de pesquisa que toma como foco, campo e alvo a sala de aula, o trabalho docente, a formação de professores e todas as questões que dizem respeito ao ensino aprendizagem de matemática; b) como corpo teórico de conhecimentos estruturado e articulado, formulado por autores próprios, base adequada para as pesquisas; c) como campo profissional, lugar de fala e de construção de identidades do professor; d) como corpo de conhecimentos produto da pesquisa empírica e pragmática que se oferecem ao professor para aplicação imediata e que são também produzidos por ele. Nesta perspectiva, o professor de matemática, pesquisador iniciante, pode recorrer tanto à base teórica produzida e oferecida pelos autores da área quanto a uma grande variedade de resultados obtidos pelos demais professores pesquisadores.

Pesquisa do Professor
“... any philosophy of mathematics (including personal philosophies) has many educational and pedagogical consequences when embodied in teachers’ beliefs, curriculum development, or assessment systems.” (ERNEST, 1996, p. 1).
Professor pesquisador é aquele que parte de questões relativas à sua prática, com objetivo de aprimorá-la. Na literatura atual (ZEICHNER, 1998, LÜDKE, 2001, 2006; FAZENDA, 2005; ANDRÉ 2006), são explicitadas diferenças entre as expressões: “pesquisa do professor” e “pesquisa acadêmica ou científica”. Em relação à finalidade, a pesquisa científica tem a preocupação com a originalidade, a validade e o reconhecimento por uma comunidade científica. A pesquisa do professor busca o conhecimento da realidade, para transformá-la, visando à melhoria das práticas pedagógicas e à autonomia do professor. Em relação ao rigor, o professor pesquisa sua própria prática e encontra-se, portanto, envolvido, diferentemente do pesquisador teórico. Em relação aos objetivos, a pesquisa do professor tem caráter instrumental e utilitário, enquanto a pesquisa acadêmica em educação em geral está conectada com objetivos sociais e políticos mais amplos. Fiorentini e Lorenzato (2006) descrevem as etapas indispensáveis na estrutura de uma pesquisa: 1) Tema; 2) Justificativa; 3) Revisão bibliográfica; 4) Questão norteadora e objetivos; 5) Teoria de base; 6) Referencial metodológico; 7) Ação didática; 8)Tratamento dos dados; 9) Resultados; 10) Conhecimento novo produzido.
Analisando o esquema, à luz de um conjunto de dissertações de mestrado que foram analisadas para este fim, pode-se estabelecer relações entre estas etapas, salientando a importância do estudo teórico e das questões primárias. O tema diz respeito ao trabalho docente do autor, relacionando-se com novas tendências e problemas atuais, sociais, políticos e educativos, em particular da Educação Matemática, e a justificativa, mostra conhecimento geral e uma visão mais ampla do mundo. A revisão bibliográfica demonstra o esforço do autor na busca dos resultados de outras pesquisas recentes e a questão norteadora do trabalho, assim como os objetivos são delineados após esta revisão bibliográfica, mostrando-se dependentes destes achados. A teoria de base é a fundamentação que o professor procura para suas respostas pessoais às perguntas primárias em qualquer atividade docente: O que é matemática? Porque ensinar? Como se ensina e como se aprende? Tais respostas informam as escolhas metodológicas, a proposta didática e o plano de ensino, e auxiliam na escolha dos dados a serem coletados e dos objetivos e métodos de análise. No momento que o professor tem clareza das suas crenças, os demais passos da pesquisa deixam de ser aleatórios. As respostas das questões primárias orientam as decisões posteriores. Num trabalho de pesquisa, ao fim do qual será elaborado, avaliado e publicizado um relatório formal, nada pode ser vago, nada pode ser dito sem fundamentos. Numa dissertação ou tese em nível de pós-graduação, o autor necessariamente deve demonstrar que se dedicou a um estudo sério das teorias predominantes e dos resultados já produzidos. O avaliador espera encontrar indícios de um esforço de reflexão e criação sobre bases teóricas bem elaboradas, o que necessariamente inclui, mas vai além das opiniões pessoais prévias.

Questões primárias da atividade docente: O que é matemática? Por que ensinar? Como se ensina e como se aprende?
“... the narrowest sense of phylosophy of mathematics education concerns the aims or rationale behind the practice of teaching mathematics.” (ERNEST, 2004, p. 1)
As respostas a estas questões são múltiplas, as teorias são diversas e, na verdade, cada professor produz, durante sua vida profissional, diferentes concepções de matemática e de ensino/aprendizagem, respondendo-as de maneiras próprias e mutáveis. Imenes (1990) foi um precursor, entre os autores brasileiros, a levantar a questão das relações entre concepções de matemática e ensino de matemática. Ele relaciona fracasso no ensino com uma concepção absolutista de Matemática: um conhecimento-produto, conjunto acabado e completo de conteúdos, passível de ser transmitido numa formalização e organização rígida. Esta concepção tem, entre seus efeitos, um ensino desenvolvido de forma a-histórica e a-temporal, como se os conteúdos tratados fossem independentes dos homens. As ideias matemáticas são apresentadas, segundo o critério da precedência lógica, sem consideração para aspectos psicológicos, culturais ou socioeconômicos envolvidos na sua criação e sem respeitar os interesses dos estudantes. Esta concepção reserva ao professor o papel central do processo ensino/aprendizagem, aquele que expõe os conteúdos através de preleções ou de desenvolvimentos teóricos, instituindo, assim, a figura do professor acadêmico: professor é aquele que conhece a matéria que irá ensinar. Por outro lado, o aluno é um aprendiz passivo a quem cabe memorizar e reproduzir os raciocínios e procedimentos ditados pelo professor ou pelos livros. Nesta perspectiva, esta ciência parece ser alienada e sem sentido e a matemática se apresenta desvinculada das demais. A revista Temas e Debates dedicou os números 1 e 2 de 1994, para tratar de questionamentos semelhantes. Diferentes autores responderam de diferentes maneiras às seguintes perguntas: Para que a matemática hoje? Por que a matemática hoje? O que ensinar de matemática hoje? Como ensinar matemática hoje? A tese de doutorado de Cury (1994) destaca a divisão entre absolutismo e falibilismo, concepções opostas de matemática, e sua relação com as práticas pedagógicas e avaliativas dos professores: a visão absolutista, dominante, pode levar a um ensino centrado no conhecimento, numa postura pedagógica formal, com avaliação objetiva, terminal e reprodutiva, em que os erros são evitados ou corrigidos; a visão falibilista pode se refletir numa reversão do quadro tradicional, priorizando um ensino centrado na ação, no diálogo e na resolução de problemas, com a avaliação contínua e formativa, em que os erros são utilizados de forma construtiva no processo de ensinoaprendizagem. A pesquisa de Fiorentini (1995), estuda relações entre as crenças e as práticas do professor, ao definir tendências em Educação Matemática, no panorama educativo brasileiro, como, “modos historicamente construídos de ver e conceber a melhoria do ensino de Matemática” (p. 3). O autor explicita múltiplas concepções de matemática, incluindo a tendência formalista-clássica, que coincide com as características da prática dominante – concepção platônica, modelo euclidiano, professor que transmite e aluno que recebe conteúdos – e descrevendo outras tendências: empírico-ativista, formalista-moderna, tecnicistas, construtivista, histórico-crítica e socioetnoculturalista. Paul Ernest é PHD em Filosofia da Educação Matemática, professor emérito na Universidade de Exeter (Inglaterra) e editor da revista eletrônica Philosophy of Mathematics Education Journal. A partir da década de 80, este autor tem se dedicado a formular e aprimorar um modelo teórico para o Construtivismo Social. Em 2007, este modelo se encontra bem definido, atualizado, coerente e extremamente adequado para oferecer respostas ás perguntas primárias. Estabelece relações entre elas e pode servir de base sólida para os professores que, fruto da sua prática, também estão construindo percepções não tradicionais a respeito da Educação Matemática. Neste texto, trago um resumo do estudo da obra de Paul Ernest, direcionado para as questões-chave. Estudei textos escolhidos disponíveis no site do autor (ERNEST, 1989, 1996, 1999a, 1999b, 2000, 2002, 2003, 2004). Na continuidade, os leitores encontrarão uma reorganização das ideias, conceitos e definições encontradas nestas referências.

O que é Matemática?
“Mathematics is cultural knowledge like the rest of human knowledge. It transcends any particular individual, but not all the humankind, like art, music, literature, religion, philosophy and science.” (ERNEST, 1999b, p. 2).
Esta questão é crucial para os professores, pois sua maneira de ver e pensar a Matemática influencia sua maneira de pensar sobre ensino e aprendizagem em sala de aula, assim como sobre o formato, desenvolvimento e implementação do currículo. É fundamental indagar a respeito da natureza da Matemática, suas características, conceitos, métodos, descobertas e verdades. Porém, não existe uma resposta única para esta pergunta. matemática pode ser vista como um corpo de conhecimentos, uma coleção de técnicas e métodos, o produto da atividade humana, e mesmo como sendo uma atividade em si, a atividade de resolver problemas. O Construtivismo Social identifica uma base con versacional para a matemática, fundamentada numa teoria social proposta por Wittgenstein, relacionando significado, conhecimento e matemática com “jogos de linguagem” e “formas de vida”. Esta teoria esclarece as bases da conversação: experiências compartilhadas, hábitos, compreensões, crenças e participação em atividades comunitárias. Assim, matemática consiste em jogos de linguagem com regras e padrões bem definidos, estáveis e duradouros, mas sempre abertos para a possibilidade de mudança. No contexto da pesquisa profissional, em matemática, indivíduos usam seu conhecimento pessoal tanto para produzir novos resultados quanto para participar num diálogo crítico para avalisar outros resultados. Em cada caso, a produção simbólica individual do matemático é uma das vozes na conversação e as provas matemáticas funcionam na comunidade matemática como garantia epistemológica. Paul Ernest salienta um debate atual entre duas correntes em ciência, a corrente dos realistas, aqueles que vêem a ciência como uma descrição racional do mundo que converge para a verdade, e a dos relativistas, aqueles que afirmam que a ciência é uma construção social para explicar o mundo, uma entre outras explicações. Paralelamente existe uma disputa em torno da questão se a matemática é descoberta ou inventada. A visão absolutista de matemática a vê como universal, objetiva e certa, com as verdades matemáticas descobertas a partir da intuição do matemático sendo estabelecidas por meio das provas. O oposto é a visão falibilista, que vê a matemática como um mundo em desenvolvimento, incompleto e nunca acabado. É corrigível, mutável, sujeito a revisão, onde novas verdades são inventadas. A filosofia absolutista corresponde à visão de matemática como um produto, visão encontrada nas escolas de pensamento tradicionais, Logicismo, Formalismo, Intuicionismo e Platonismo. Em cada uma delas, define-se Matemática como um produto que é identificado com lógica, com sistemas formais, intuicionismo lógico ou estruturas relacionadas com a teoria dos conjuntos. A filosofia falibilista tem origem na teoria empiricista de Lákatos, que concebe Matemática como um processo, uma atividade humana baseada na resolução de problemas. O falibilismo associa Matemática com um conjunto de práticas sociais, cada uma com sua história, envolvendo pessoas, instituições e posições sociais, formas simbólicas, propósitos e relações. A pesquisa acadêmica em matemática é uma destas práticas; as matemáticas dos diferentes grupos culturais e a matemática escolar são outras práticas, todas distintas. Nessa perspectiva, o conhecimento matemático, como qualquer outro conhecimento científico, não pode garantir certezas. A visão falibilista não sugere que alguma parte da matemática seja falível, no sentido de falsa, apenas nega que exista a verdade absoluta. A matemática admite a existência de interpretações diferentes. Matemáticos estão o tempo todo inventando novos mundos imaginários sem precisar descartar ou rejeitar os anteriores, como se vê na passagem da geometria euclidiana para as outras geometrias. Na sua essência, esta concepção reafirma a importância do conhecimento matemático, necessário, autônomo e estável. Uma vez que a humanidade inventou alguma coisa descrevendo as regras que regulam sua existência, tal como o jogo de xadrez, a teoria dos números, ou a álgebra, as implicações e padrões que emergem das regras podem nos surpreende, mas isto não muda o fato de que nós inventamos o jogo. Apenas demonstra a riqueza da invenção. Com esta fundamentação teórica, pode-se ir mais além e desenvolver um modo mais amplo de pensar Matemática. A Matemática que conhecemos é produção cultural e construção social. É dialógica e a conversação permeia tanto a atividade de pesquisa como a de ensino e aprendizagem. O conhecimento e as competências são adquiridos em prolongada participação, em variadas situações, em diferentes contextos com diferentes pessoas. Sua história relaciona a tradição oriental e o progresso ocidental e está associada a valores sociais positivamente construídos: é saber valioso, no nosso mundo, desejável e de difícil acesso. Inclui um modo de pensar lógico e organizado, freqüentemente interpretado como o modo de pensar que leva ao sucesso social e econômico, uma linguagem simbólica concisa, porém, para muitos, hermética, um conjunto de técnicas úteis para o desenvolvimento da ciência. É ciência que permite a construção de modelos simplificados da realidade e que facilitam sua compreensão. É estrutura de conhecimentos organizados e encadeados com certa beleza intrínseca, representante do poder da mente humana.

Por que ensinar Matemática?
“Empowerment is the gaining of power in particular domains of activity by individuals or groups and the processes of giving power to them, or processes that foster and facilitate their gaining of power.” (ERNEST, 2002, p.1)
Esta é mais uma questão fundamental para o trabalho do professor pesquisador. Qualquer proposta de intervenção para a melhoria do ensino é necessariamente orientada pela reflexão a respeito das suas razões. Existem muitas respostas. Ensina-se matemática para dar oportunidades aos jovens de competir no mercado de trabalho, eis que este saber foi eleito como filtro social, presente em todos os tipos de concursos e provas de seleção; porque é patrimônio da humanidade, como a arte e como a filosofia; porque desenvolve o pensamento lógico; porque auxilia na resolução de problemas; porque é útil na vida social; porque é utilizada pelos governantes e dirigentes, para determinar os rumos da política e da economia. Paul Ernest reúne todas as respostas no conceito de “empowerment” em Educação Matemática. A expressão inglesa “empowerment” refere-se às possibilidades de um indivíduo ou grupo alcançar uma posição melhor, nas redes de saber e poder, num particular domínio, e ao processo de facilitar e favorecer esta ascensão. Discutir o “empowerment” na Educação Matemática diz respeito aos objetivos do ensino e da aprendizagem da matemática e ao papel da matemática na vida do aprendiz, tanto no âmbito da vida escolar quanto no contexto social, no presente e no futuro. Nessa linha, o autor define três diferentes domínios: matemático, social e epistemológico. “Empowerment” matemático diz respeito á ascensão nas redes de poder a partir do domínio sobre a linguagem, as habilidades, as práticas de uso e as de aplicação da matemática, no domínio estreito da matemática escolar, assim como a partir da aquisição de confiança para aplicar este conhecimento em outros contextos. “Empowerment” social diz respeito à habilidade em usar a matemática para melhorar as chances no estudo, no trabalho e para participar mais plenamente na sociedade através de uma cidadania matemática critica. Isto envolve avanços no domínio social mais amplo, incluindo os mundos do trabalho, vida e relações sociais. “Empowerment” epistemológico diz respeito ao crescimento da autoconfiança não apenas em usar a matemática, mas também de uma sensação pessoal de poder sobre a criação e validação do conhecimento. Esta é uma forma pessoal de “empowerment”: o desenvolvimento da identidade, confiança e capacidade de governo tanto no sentido matemático quanto social. Na prática, porém, o currículo e os objetivos oficialmente propostos para o ensino de matemática não se encontram no âmbito elevado da teoria, mas sim, são dependentes do contexto social. Tais objetivos expressam as intenções, os valores, os interesses e as ideologias de certos grupos ou indivíduos. Paul Ernest distingue cinco grupos que influenciam a história educativa e social inglesa, cada um deles com diferentes concepções sobre a natureza da Matemática e sobre as razões para ensiná-la. Não é difícil, para nós, identificar tais interesses também na sociedade brasileira. O grupo que se preocupa com o progresso econô- mico vinculado com a indústria privilegia o treinamento das competências calculatórias básicas; o grupo vinculado ao progresso tecnológico postula o desenvolvimento de competências básicas para resolução de problemas práticos; o grupo humanista enfatiza a compreensão e a apreciação da matemática pura; o grupo dos educadores progressistas tem como objetivo o desenvolvimento da autoconfiança, da criatividade e da autoexpressão; e o grupo dos educadores públicos almeja a formação do cidadão crítico, matematicamente competente. O autor expõe as contradições entre o objetivo de ensinar matemática para desenvolver capacidades e competências e o objetivo de desenvolver “apreciação da matemática” e se dedica a explicitar os significados desta expressão para a principal razão para ensinar matemática. Desenvolver a apreciação da matemática tem relação com: adquirir uma compreensão qualitativa das principais ideias da matemática; ser capaz de compreender os principais ramos e conceitos da matemática, interconectando-os; compreender as múltiplas concepções a respeito da natureza da matemática, percebendo a controvérsia a respeito da sua fundamentação filosófica; estar consciente de como e em que extensão o pensamento matemático permeia o dia a dia e as situações de vida, mesmo quando não existe referência explícita à matemática; entender criticamente os usos da matemática na sociedade, muitas vezes servindo aos interesses de governantes ou de grupos sociais; estar consciente do desenvolvimento histórico da matemática e dos contextos sociais nos quais se originaram os conceitos, simbolismos, teorias e problemas; ter a percepção de que a matemática é um elemento central na cultura, na arte, na vida presente e passada, permeando e contribuindo para a ciência, a tecnologia e todos os aspectos da cultura humana. Ou seja, para o autor, apreciar a matemática envolve compreender e ter consciência de sua natureza e valor, assim como compreender e ser crítico das suas aplicações na sociedade. Com esta fundamentação, pode-se elaborar uma síntese. Ensina-se matemática com o principal objetivo de desenvolver os conceitos, a linguagem, as ferramentas e o modo de pensar matemático que auxiliam a perceber, descrever e analisar a realidade física e social e que são postos em ação nas práticas sociais. Mas, antes de tudo, ensina-se para abrir caminhos de sucesso individual, no contexto social. No âmbito utilitário, o sucesso em matemática dá ao estudante chances no estudo, no trabalho e nas relações sociais. A certificação, na forma de testes e exames, serve como evidência das capabilidades do estudante e abrem as portas para atividades sociais. Esta documentação formal é exigida para admissão em estudos avançados e para ocupações bem remuneradas. Além disso, é preciso pensar em “cidadania matematicamente critica”, que envolve a formação de cidadãos matematicamente alfabetizados, capazes do exercício do julgamento independente e crítico dando conta da utilização da matemática para justificar decisões políticas assim como na comunicação de mídia.
Como se aprende?
“... one of the special features of social constructivism in social psychology is the explicit central use of the metaphor of conversation for mind, as well for interpersonal interaction.” (ERNEST, 1999a, p. 2)
Esta pergunta antecede a questão prática relativa aos modos de ensinar. As decisões do professor sobre as rotinas da sala de aula são necessariamente orientadas por suas crenças sobre aprendizagem. É fundamental refletir sobre o tema. A concepção atual e usual, na escola, envolve a concepção de construtivismo, porém este é um termo polissêmico, com diferentes acepções. A predominância do construtivismo piagetiano na pesquisa educacional dos últimos 20 anos teve como principal conseqüência desenvolver uma nova visão da aprendizagem, que não se reduz simplesmente à transmissão dos fatos. O que pode ser aprendido é fortemente restringido pelas concepções iniciais dos sujeitos – pelas situações propostas e pelos meios de ação que eles dispõem para enfrentá-las. No entanto, a concepção construtivista piagetiana é considerada hoje insuficiente para modelar de forma satisfatória os processos de aprendizagem de Matemática, porque não dá conta das dimensões sociais e culturais desta aprendizagem. O Construtivismo Social, formulado por Ernest, critica o construtivismo piagetiano e neopiagetiano, denominado Construtivismo Radical, incluindo outras concepções de construtivismo, posições que compartilham uma noção principal de que o domínio social influencia o desenvolvimento individual de um modo formativo, em que o indivíduo constrói ou se apropria de significados em resposta às experiências nos contextos sociais. Esta concepção é baseada nas ideias de Vygotsky, enfatizando mente, interação, conversação, atividade e contexto social, elementos que estão inter-relacionados num todo e indicam um largo espectro de implicações e aplicações para a sala de aula e para a pesquisa. Esta abordagem do construtivismo vê a subjetividade do indivíduo e a essência do social como indissoluvelmente conectados, de tal modo que a subjetividade humana é constituída tanto a partir de suas interações com os outros no contexto social quanto a partir dos processos individuais. Estes contextos sociais são formas de vida e jogos de linguagem compartilhados e a metáfora para mente e aprendizagem é a conversação, interação lingüística entre as pessoas. A conversação oferece um caminho poderoso para dar conta simultaneamente da ação mental e do conhecimento matemático. Paul Ernest define três níveis de conversação: a conversação que se origina no nível interpessoal, é um dos  modos básicos da interação humana; a conversação que se origina no nível cultural e que inclui os textos escritos, numa extensão da noção de conversação; a conversação como uma atividade interna e privada, intrapessoal que para Vygotsky, é a origem do pensamento. Todos os tipos, mesmo a conversação privada, referem-se a uma atividade socialmente construída, e a conversação socialmente situada tem importante papel na formação da mente. Com esta fundamentação, pode-se pensar nas múltiplas variáveis que influenciam o processo de aprendizagem para além do triângulo professor-aluno-conteúdo. As ações das pessoas, os significados e propósitos mobilizados nas suas atividades, suas visões subjetiva e pessoal, sua posição no contexto, suas concepções derivadas das experiências passadas, seus afetos e desejos, tudo participa no processo de aprendizagem. Além disso, o próprio pensamento é produzido pela motivação, isto é, pelas necessidades, interesses e emoções.

Como se ensina?
“... a parallel exists between the falibilist conception of mathematics… and the humanistic image of mathematics promoted by modern progressive mathematics education, as accessible, personally relevant and creative.” (ERNEST, 1996, p. 3)
Esta é a pergunta mais freqüente, formulada pelo professor. Qual é a melhor maneira de ensinar? Qual deve ser o papel do professor na sala de aula? Existe uma posição filosófica largamente aceita que afirma a relação entre a pedagogia matemática adotada pelo professor e sua filosofia a respeito da matemática e da aprendizagem, a partir da ideia de que toda filosofia tem suas conseqüências na prática e toda prática se justifica em alguma filosofia. Nessa linha, a metáfora da conversação e a visão falibilista de Matemática sugerem que o método básico de produção do conhecimento matemático consiste em pesquisar e discutir soluções para problemas de todos os níveis. E a concepção construtivista de aprendizagem contribuiu para explicitar os limites das estratégias de ensino que atribuem um papel dominante ao que o professor fala. Paul Ernest demonstra, com resultados da pesquisa empírica, que relação filosofia e prática é complexa e não determinística. Não existe necessariamente uma implicação lógica direta entre a concepção de Matemá- tica do professor e sua prática docente. Não é possível concluir que um professor com concepções absolutistas necessariamente optará por uma pedagogia de transmissão direta ou que um professor com concepção falibilista optará pela resolução de problemas, pois nesta opção pedagógica entram em jogo, também, além de suas crenças e valores pessoais as imposições culturais, da escola, do sistema educativo e mesmo das famílias dos alunos. Contudo, é possível constar que, em escolas progressistas, a visão falibilista de Matemática e construtivista-social de aprendizagem está influenciando uma nova concepção de ensino. A Matemática tem sido ensinada e vivida como uma experiência pessoal, ativa, colaborativa, intuitiva, criativa, investigativa, cultural, histórica, relacionada com situações humanas, agradável, plena de alegria e de beleza. Na perspectiva do Construtivismo Social, conhecimento tem uma ontogenia social e está intimamente ligado à experiência. Resolução de problemas e metodologia de projetos são opções atuais e bem justificadas teoricamente, para o ensino de Matemática. Nessas opções, os estudantes são encorajados a propor ideias, incentivados a testar hipóteses por si mesmos, a tentar sugerir, generalizar e comparar métodos, e a procurar outros problemas da mesma natureza que já foram previamente resolvidos. A expectativa é que, o aumento do envolvimento e da participação tenha como conseqüência o aumento do prazer de aprender, fruto da percepção da relevância da Matemática para o problema A aprendizagem ocorre com a conversação que não é apenas troca de informações. A sugestão consiste em salientar o respeito mútuo e a sinceridade entre professor e aprendiz; ouvir os aprendizes, demonstrar e sentir interesse por seus pontos de vista, suas concepções e suas construções de sentido; transformar o ensino numa conversação real, num verdadeiro dialogo onde existe respeito pela inteligência e espaço para a iniciativa do aprendiz; tratar questões e objetos reais de interesse mútuo e de benefício mútuo. Paul Ernest afirma que, no ensino de Matemática, provavelmente o fator mais importante é a qualidade das relações professor-aluno. Além disso, enumera outros fatores, tais como a variedade e a riqueza dos desafios matemáticos e dos projetos, o aumento gradativo das demandas cognitivas e o deslocamento das atividades individuais para as atividades coletivas, em que haja compartilhamento das idéias. O autor traz à tona a perspectiva da “Educação Matemática Critica”, segundo a qual os estudantes devem ser capazes de pensar matematicamente e de usar o conhecimento e as habilidades matemáticas em suas vidas, para ascender nas redes de poder, tanto pessoalmente como cidadãos tanto para apreciar o papel da matemática na historia, na cultura e no mundo contemporâneo. Educação Matemática Critica enfatiza a apreciação da Matemática assim como a capacidade de criticar seu uso social. Nesta perspectiva, em termos de pratica escolar, a sugestão está na inclusão de discussões, dor conflito de opiniões e pontos de vista, bem justificadas, do questionamento e da negociação de conteúdos e metas compartilhadas. Materiais de aprendizagem incluem projetos de relevância social e dados autênticos. Acomodam a diversidade social e cultural e usam fontes culturais locais. Entretanto, a abordagem deve também honestamente e abertamente se preocupar com os objetivos instrumentais e de vida, dos aprendizes, em termos de habilidades necessárias e aprovação em exames e testes. Com esta fundamentação, pode-se elaborar uma concepção de ensino-aprendizagem e do papel do professor, com base nas noções de grupo cultural e de zonas de interesse. Neste quadro, cabe a ele conhecer o aluno e o contexto da comunidade escolar, detectar zonas de interesse e motivação para, a partir daí, criar situações de ensino interessantes, que facilitem a aprendizagem. O professor ocupa seu lugar central no processo de ensino/ aprendizagem, ao buscar o novo, junto com os alunos, conhecer o aluno, em suas características culturais e sociais, reunir, junto com eles, estratégias de compreensão do mundo e estimulá-los no desenvolvimento desta compreensão,

Considerações finais
“The pupil’s view of mathematics is likely to be influenced by parental, peer and societal views of mathematics… However, the major influence is undoubtedly the pupil’s learning experiences.” (ERNEST, 1981, p. 558).
Este texto foi preparado para auxiliar o professor pesquisador na sua tarefa de propor intervenções na escola que venham a contribuir para a melhoria do ensino. Este se encontra em crise, e um dos indicadores da crise é a imagem pública da Matemática tida como um conhecimento rígido, fixo, lógico, absoluto, não humano, frio, objetivo, puro, abstrato, remoto e ultrarracional. Esta imagem aparece estreitamente relacionada com uma concepção absolutista de Matemática como ciência a-temporal, a-histórica, isolada, universal e neutra. As opções teóricas de Paul Ernest iniciam-se propondo a mudança desta visão para, a partir daí, repensar aquilo que se sabe sobre ensino e aprendizagem. Pesquisa, ensino e aprendizagem de matemática têm como base a conversação. Matemática é construção humana, linguagem, pensamento, conceitos e técnicas criadas a partir do mundo, para auxiliar na compreensão do mundo. Ensina-se para desenvolver o “empowerment” e a apreciação pela matemática. Ensina-se envolvendo os alunos em atividades interessantes e a aprendizagem ocorre na discussão, interação e troca de ideias. Mas qualquer diálogo nasce de um tema de interesse dos participantes, e, nesta perspectiva, cabe ao professor conhecer e reconhecer seus alunos, para identificar estes temas. Como fazer isto? Minha sugestão, aos professores pesquisadores, é um referencial para pesquisa que denomino Modelo do Interesse (CARNEIRO, 2007). A questão norteadora, numa pesquisa inspirada neste modelo é: Quais são os interesses dos meus alunos que podem dar início a uma atividade de ensino e aprendizagem de Matemática? A ideia é construir e experimentar propostas de ensino em torno das habilidades e conceitos da Matemática que emergem – e são úteis e necessárias – das práticas sociais relacionadas com zonas de interesse. O objetivo maior é disponibilizar para os alunos recursos para transitar melhor no seu meio e responder melhor aos desafios que se apresentam, ou seja, o “empowerment” matemático e social. Este pode ser um caminho para as iniciativas de renovação curricular e para novas relações na sala de aula. O currículo pode ser estruturado em termos do grupo social. As atividades podem ser organizadas valorizando a motivação, o interesse, o desejo e a vontade. Estas são as fontes primárias de qualquer aprendizagem.

Referências
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[1] Artigo utilizado como apostila na disciplina: Pesquisa em Educação Matemática, do Curso de Licenciatura em Matemática da UFRGS.
[2] Doutora em Educação pela PUCRS e Mestre em Matemática pela UFRGS. Professora do Instituto de Matemática da UFRGS, atuando no Curso de Licenciatura e no PPG-Ensino de Matemática. E-mail: veraclot@ufrgs.br